Saiba por que o professor de medicina faz “blackface” para simular pacientes pobres

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Saiba por que o professor de medicina faz “blackface” para simular pacientes pobres
Fonte: (reprodução/internet)

Um professor do ensino superior de uma faculdade paulista foi recentemente afastado do seu cargo de docente por apresentar comportamento que fere a constituição e a ética profissional. Ronald Sergio Pallotta Filho, o professor, foi denunciado pelos próprios alunos que testemunharam sua atitude durante uma aula virtual em decorrência do ensino remoto e por isso será investigado. A aula estaria sendo ministrada para alunos ingressos no primeiro ano de faculdade, que consternados gravaram a aula e fizeram a denúncia junto a instituição gestora da faculdade, que agora pretende levar o caso a conselhos regionais que possuem a autoridade necessária para penalizar o docente por suas ações. Clique em próximo e descubra que atitudes foram estas que levaram o professor a se tornar notícia no país.

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Problemática

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O caso ocorreu em 06 de outubro de 2020, o professor Ronald Sergio teria sido incumbido de ministrar uma matéria onde os estudantes do primeiro ano do curso de Ciências Médicas, da faculdade Santa Casa de São Paulo, iriam aprender como se relacionar com pacientes “pobres” dentro do consultório. Para a infeliz apresentação o professor resolveu satirizar o paciente vindo do SUS (Sistema Único de Saúde). Durante o que ele chamou de “encenação teatral” o docente haveria demonstrado ações e comportamentos racistas e preconceituosos. O que gerou total desconforto e revolta em seus alunos que, inconformados com o comportamento do professor, fizeram uma gravação de um trecho da aula de Ronald Filho que felizmente foi suspenso de suas atividades como docente.

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Racismo

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Ferindo todo o bom senso, o professor Ronald Sergio Pallotta Filho resolveu aparecer em uma aula virtual com o rosto coberto por uma máscara preta, simulando a terrível prática do “blackface”. Além desse fato, o docente teria ridicularizado pacientes provenientes do Sistema Único de Saúde ao simular uma conversa onde o paciente seria representado como uma figura cômica, satirizada, o transformando em uma versão grosseira através de suas falas onde diz interpretar esta figura. A disciplina trata a temática da propedêutica, onde estudam que uma boa relação com o paciente, muitas vezes ajuda e facilita na busca de um diagnóstico.

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Blackface

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A prática é considerada extremamente ofensiva e de mal gosto, é caracterizada por pessoas brancas se pintando com tintas marrons ou pretas para simular ou satirizar pessoas negras. Muitos acreditam que esse comportamento chulo teria tido origem em Nova York por volta de 1830. Esta prática grotesca teria então pelo menos 200 anos. O comportamento não é considerado ofensivo por pessoas brancas se pintarem mas por ridicularizar e representar todo o preconceito externado por meios estéticos. Este comportamento era muito comum como forma de entretenimento racista entre brancos que estereotipam até os dias atuais pessoas de tez negra, ou seja, esse tipo de atitude alimenta a má conduta do racismo presente até os dias atuais. Atores do século XIX pintavam suas faces e se comportavam de forma exagerada durante espetáculos humorísticos, o comportamento é repudiado atualmente. Contudo, infelizmente, ainda nos deparamos com este tipo de prática racista como a do professor Ronald.

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Preconceito

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Além da encenação sem noção de blackface por parte de Ronald Filho, ele chegou também a interpretar um paciente de classe social baixa que estaria sendo atendido graças ao Sistema Único de Saúde (SUS). Durante a interpretação o docente haveria dito estas palavras “Eu não como essas comidas de fraco aqui do SUS, não, sabe? Eu não como, não. Eu como é comida de macho, de macho. Você está entendendo?

A encenação do professor revela sua concepção limitada em relação aos pacientes com renda social mais baixa, ele associa o paciente de renda baixa a pessoas negras e a comportamentos rudes. Em sua interpetração, demonstra que sua ideia de paciente do SUS é de uma pessoa sem conhecimento, dotada de comportamentos grosseiros e preconceituosos.

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Juramento de Hipócrates

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O primeiro código de ética para profissionais da área de medicina e saúde é conhecido por Juramento de Hipócrates, este teria sido o pai da medicina ocidental. O texto datado do século V antes de Cristo foi escrito em grego e prevê que o aluno ou médico tenha integridade para com o doente ou paciente, além de integridade para com a vida, com a assistência dos doentes e o desprezo a sua própria pessoa em vista da sua missão. Nesta primeira versão de um código de ética ainda fica determinado que o que se ouve durante o ato de profissão da medicina deve ser guardado e o profissional que cumprir todo o juramento será digno de reconhecimento. Caso este profissional quebre o juramento, deverá acontecer o contrário, além de perder sua dignidade como médico. A versão do juramento de Hipócrates ainda é adotada pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.

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Missão da medicina

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Existem atualmente uma série de documentos que predizem normas e comportamentos que devem ser adotados por profissionais da área da saúde. O juramento de Hipócrates pode ser considerado ultrapassado dado que foi criado no Século V a.C. O fato é que, em todos os documentos o respeito para com o paciente não muda, o que se altera é que agora se atribui certa autonomia aos doentes para poder discutir casos como os de eutanásia, por exemplo. De qualquer maneira, a missão da medicina sempre foi e sempre deverá ser servir a humanidade com comprometimento com a justiça e em obediência a legislação. A prestação de serviços médicos deveriam respeitar e nunca ferir a dignidade de um paciente. Por isso, a aula do professor Ronald Sergio Pallota Filho vai contra a maior parte dos preceitos de sua profissão.

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Defesa e denúncia de Ronald Filho

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O docente foi suspenso de suas atividades e alegou que não teve intenção de ferir ninguém ao utilizar a máscara na sua encenação. Ou seja, ele alegou que não teria a intenção de representar “conteúdo racista”. No entanto, os alunos matriculados em sua matéria não tiveram a mesma leitura do seu professor e elaboraram uma representação formal que foi apresentada junto ao Núcleo de Direitos Humanos da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa da Misericórdia, de São Paulo. Os alunos incrédulos com a atitude do professor também pretendem levar o caso gravado para o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp). O comportamento do docente é incompatível com a realidade atual e pode se caracterizar como injúria racial e social.

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Médico na Santa Casa

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Além de ser docente, Ronald Filho atua como médico na instituição. O portal de notícias G1 colheu uma série de depoimentos de outros médicos residentes da Santa Casa da Misericórdia em São Paulo. Um dos colegas residentes na Santa Casa demonstrou inconformidade com o comportamento ensinado por Ronald Sergio Palloto Filho. O profissional, que não quis se identificar, compreende que o papel do médico é mediar o conhecimento técnico de saúde e o tornar mais compreensível para o paciente. Este seria, em sua concepção, o papel do atendimento médico, pois a prática a propedêutica só teria sucesso através do bom atendimento que facilita a compreensão de um diagnóstico por ambas as partes.

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Depoimentos

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Outra médica, residente na Santa Casa da Misericórdia de São Paulo, alegou ao G1 que Ronald é conhecido por seu comportamento mal educado, autoritário e arrogante. A médica demonstrou sua indignação ao se tratar do caso, principalmente devido ao tipo de matéria que estava sendo ministrada, onde a propedêutica que deveria auxiliar no diagnóstico foi lida e representada de maneira preconceituosa para os futuros médicos em formação.

Outro médico relatou a falta de respeito e o abuso de autoridade empreendido pelo docente, “em um ambiente de enfermaria ele exige, da forma mais rude possível, imediatismo em questões burocráticas do atual plantão e de plantões passados. Esse tipo de atitude a abusiva e grosseira dele é corriqueira.” disse o profissional ao G1.

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Posição da Santa Casa

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A Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa emitiu uma nota onde afirma repudiar veemente qualquer ação de cunho racista ou preconceituoso. A instituição resolveu abrir uma sindicância interna para apurar os fatos ocorridos, esta sindicância pode levar ao afastamento do médico. A instituição deu direito a defesa por parte do contraditório, a sindicância pode durar até 60 dias e durante este tempo o médico encontra-se suspenso de seus afazeres na instituição. Em nota, o médico denunciado por comportamento racista e preconceituoso afirmou que não estava familiarizado com a prática do “blackface” e por isso não compreendia sua conotação ofensiva. Reafirmou não ter tido a intenção de ofender ninguém por sua raça ou classe social, disse também atuar como médico a pelo menos 30 anos, inclusive prestando atendimento aos menos favorecidos, alegou que sua “encenação” seria somente para fins didáticos acrescentando o que em sua visão seria um conteúdo “lúdico”. O caso ainda será levado pelos alunos para o Conselho Regional de Medicina de São Paulo.

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